MESA REDONDA: ANTROPOLOGÍA VISUAL

Auditorio Geociencias, Edificio Geociencias

9.30 – 11.00h

Autoría y auto-reflexividad en el cine etnográfico

Organización: Catarina Alves Costa y Humberto Martins

Debate: Clarice Peixoto, profesora e directora. Univ. Estadual do Rio de Janeiro.

 

Num momento em que se questionam os usos da retórica nas narrativas construídas do filme etnográfico, que se aproximou cada vez mais do documentário, parece-nos importante voltar à questão da especificidade dos usos da imagem e do trabalho sobre as culturas visuais. Há similaridades surpreendentes entre os cânones e a prática do documentário observacional e as características que parecem distinguir a pesquisa e a literatura antropológica. Estas construíram-se, historicamente, a partir do movimento do direct cinema. A mais importante delas talvez seja a premissa compartilhada de que o produto gerado, junto com os insights que incorpora, se imagina como fruto de um conhecimento pessoal profundo dos protagonistas. O modo como os investigadores tentam escapar a essa imposição do autor-autoridade, os problema da ética e da política da representação, serão aqui discutidos a partir de casos particulares e visionamento de excertos. Os usos de diferentes tipos de retórica visual serão tratados pelos participantes da mesa redonda em confronto com as formas contemporâneas de fazer etnografia, trabalhando questões como a hibridez dos eventos filmados, muitas vezes multi-situados, as narrativas diarísticas, os usos da entrevista e da polifonia, a montagem e a construção cinematográfica, o trabalho da luz ou o som e o que nele se fabrica.

Participantes: Amaya Sumpsi, Arlindo Horta, Catarina Faria, Catarina Laranjeiro, Hellington Vieira, Rodrigo Lacerda

 

Amaya Sumpsi

Título: Apanhados na Rede

O percurso de realização deste documentário começa bem longe da antropologia. Quando comecei a filmar, em 2005, eu era licenciada em cinema e em literatura e de “etnografia” apenas conhecia o nome. Filmei durante 4 anos, em períodos alternados, junto da comunidade piscatória de Porto Formoso, guiando-me pelos meus conhecimentos mas sobre tudo, pela minha inquietude e empatia. Tinha boas imagens e uma  história forte, mas os brutos acumulavam-se e eu não conseguia organizar o material: fiz muitas tentativas de edição, acabando sempre por desistir. Coisas do destino, em 2009, numa ida à Universidade Nova de Lisboa, vi o cartaz do novo mestrado de Antropologia e Culturas Visuais. Não sabia se o meu documentário era etnográfico ou não, pois nunca o tinha pensado nesses termos, mas intuía que de alguma forma, esses seminários me poderiam ajudar. E assim foi. Nos seminários, percebi que muitas das questões que a comunidade de Porto Formoso debatia faziam parte da discussão atual da antropologia. A antropologia deu-me as ferramentas de análise, e assim, escrevi mais de 100 páginas de reflexões ao redor das questões que acompanhei na aldeia. Depois de terminar de escrever a dissertação, sentei-me de novo na mesa de edição.

 

Arlindo Horta

Título: Tão perto do silêncio

Fazer um documentário sobre ou com refugiados/requerentes de asilo colocou-me diversas questões muito pertinentes sobre, entre outras coisas, a gestão das relações de poder entre quem filma e quem é filmado. Gostava de falar sobre:

1º O que representar? Como evitar, neste caso particular, a simples exposição/exploração de uma “narrativa dramática” tantas vezes (e de tantas formas) solicitada?

2º O trabalho de campo e o estabelecer de uma relação de confiança com o grupo que filmei (o tempo + a introdução da câmara).

3º Como eliminar o mais possível do acto de filmar a noção de relação de poder?  Evitar a relação burocratizada (o assinar de autorizações); evitar as perguntas directas sobre “a história de vida”; estar/filmar/observar; o desenho das conversas individuais e a abordagem ao espaço privado.

O objectivo de toda esta gestão foi afastar o processo de realização do filme de qualquer semelhança, real ou imaginada, com o processo de asilo que todos os requerentes atravessam. Tentei assim explorar um contexto (o teatro) onde a representação/performance de memórias e narrativas fosse um acto de exposição voluntário e controlado pelos seus protagonistas e que o filme fosse, de facto, um verdadeiro encontro de olhares, fundado numa ideia clássica de cinema de observação, mas também numa forma de diálogo aberto com os seus protagonistas que interpelam a câmara com as memórias que desejam partilhar, os seus silêncios, as suas expectativas e as suas reivindicações.

 

Catarina Faria

Título: Fado Tropical

Pretendo falar de alguns desafios que surgiram ao longo da pesquisa antropológica e realização do filme Fado Tropical, projeto de investigação que se debruçou sobre as histórias de vida dos artistas de fado portugueses e lusodescendentes, e nos percursos dos artistas brasileiros sem ascendência portuguesa, procurando conhecer a sua relação com o fado e as práticas associadas ao mesmo, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

1. Como operacionalizar o encontro entre a linguagem criativa e sensitiva dos meios visuais com a necessidade de elaboração de um argumento teórico, importante para um trabalho em ciências sociais? 2. A câmara introduz uma dinâmica nova na interação entre o antropólogo e os interlocutores. Como gerir o conflito entre os papéis de documentarista/catalisadora versus antropóloga/observadora?

3. Há espaço para diferentes formas de filmar em antropologia? Referir-me-ei à opção pela combinação de dois modelos de retórica visual: um, assente na entrevista e numa visão polifónica da realidade do fado no Brasil, que dá voz aos artistas portugueses emigrantes que construiram a sua carreira no fado e que nos contam a sua história através do recurso a fotografias e discos, e outro, que a partir da demonstração de atuações de fado, alude às diversas realidades que caracterizam o fado no Brasil, tanto a nível de espaços de apresentação, como de formas de interpretação e da variedade de artistas, nomeadamente, de brasileiros sem especial ligação a Portugal.

 

Catarina Laranjeiro

Título: Nós, a Guerra (título provisional)

No âmbito do meu trabalho de investigação sobre memórias da guerra colonial/ de libertação, estive a filmar em tabancas no interior da Guiné-Bissau. Nesse contexto, os entrevistados eram pessoas sem domínio da língua portuguesa e com quem muitas vezes eu tinha dificuldade em comunicar com o meu arcaico crioulo. Adicionalmente, o meu equipamento (tripé, câmara e gravador) despertaram a curiosidade junto da população mais jovem, que logo nos rodeava para assistir à entrevista/filmagem. Para superar as minhas limitações comunicacionais e como forma de incorporar os comentários, risos, observações daqueles que estavam a assistir à entrevista/filmagem, decidi dar a este projecto um carácter colaborativo, convidando pessoas a realizar a entrevista/filmagem.

Desta forma os pontos que queria debater são: Filmes de investigação autoral vs filmes de investigação colaborativos; O que é a antropologia partilhada/colaborativa espontânea? O que a distingue de um processo colaborativo planeado? Que vantagens e limitações esta colaboração traz para o projecto de investigação em curso?

 

Hellington Vieira

Título: A Horta do Monte (título provisional)

1º) Realizei um trabalho de campo de mais de 3 meses, antes de começar a filmar. A consequência foi que sempre soube para onde apontar a câmara. Sabia quais eram os espaços mais relevantes, as estruturas fundamentais da horta e os personagens com maior relevância. Além disso, a introdução da câmara aconteceu quando as pessoas já me conheciam, confiavam em mim e até me pediam para filmar determinadas cenas. Portanto, gostava de começar por falar sobre o momento de introdução da câmara.

2º) Por se tratar de uma horta ilegal, baseada num solo de saúde questionável, sempre houve assuntos delicados. E nestes momentos, em conversas mais íntimas, desabafos ou discussões, tive dúvidas se devia ou não ligar a câmara. Seguir o que sinto ser ético terá enfraquecido o meu filme? Ainda não sei. Mas até o dia da conferência, vou saber. Gostava de falar sobre isso.

3º) A relação entre a problemática do tema e as imagens captadas nem sempre são óbvias. No meu caso, esta relação só se tornou evidente no último mês de filmagens, depois de ter percorrido vários raciocínios e leituras, e de ter visualizado o material filmado inúmeras vezes. Gostava de fazer uma breve exposição sobre como isto decorreu.

 

Rodrigo Lacerda

Título: Thierry

Talvez o cinema etnográfico tenha estado demasiado preocupado em mostrar e explicar quando a verdadeira natureza do filme é o experienciar. A câmara parece uma tecnologia transparente e o vídeo algo simples de usar. Contudo, o cinema possui uma gramática extremamente rica que permite uma relação fenomenológica não verbal entre os vários intervenientes dos projecto fílmico. Nesse sentido, partindo da minha actividade documentarista, proponho avançar algumas ideias de como trabalhar a experiência dentro do cinema etnográfico.